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Vida segue

ram dois grandes amigos, conforme disse a musa. Viajavam pela Linha 2/Verde. Iam da estação Sacomã, num vagão quase vazio, rumo à estação Paraíso. Conversavam animadamente sobre amenidades e observaram, pelo reflexo da janela, que atrás de seus bancos estavam duas belas mulheres que conversavam também. Era uma conversa mais tensa, talvez. Semblantes fechados, graves. Isso parece não ter sensibilizado os dois amigos, que seguiram conversando e, vez ou outra, buscando um olhar das vizinhas de viagem. Lá fora, chuva forte. Puderam percebê-la ao passarem pela estação Imigrantes, que fica na superfície. Maldisseram a sorte de não estarem portando seus guarda-chuvas, restando-lhes a torcida pelo fim do aguaceiro.

Na estação Ana Rosa, as garotas desceram rapidamente, quase que simultaneamente ao toque de fechamento das portas. De tão compenetradas em seus diálogos, abandonaram esqueceram seus guarda-chuvas no banco onde viajavam. Os rapazes rapidamente pegaram o que seria a salvação da noite, a chance de chegarem secos em suas respectivas casas. Ou, a chance de praticarem uma boa ação antes do fim do dia.

O caminho da plataforma até a SSO, passando por uma quase infinita escada rolante, foi feito em silêncio. Um aguardava a reação do outro para saber o que fazer. Ao chegar em frente à sala envidraçada da estação, estancaram. O funcionário do Metrô os observou com certa curiosidade e, percebendo que precisaria tomar a iniciativa para chegar a algum desfecho, perguntou:

– Posso ajudar?

Os dois gaguejaram, entreolharam-se com indisfarçável culpa e concluíram:

– Encontramos estes guarda-chuvas, esquecidos no trem onde viajávamos. Viemos entregá-los.

– Obrigado! Vou encaminhar para o Achados e Perdidos da estação Sé. O Metrô de São Paulo agradece a ajuda de vocês – disse em tom cerimonial.

Os dois, calados, foram embora. A chuva, a esta altura, já havia cessado.

Vida segue…

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Final melancólico

á quem diga que a intolerância, os nervos a flor da pele, dominam o dia-a-dia no transporte coletivo da cidade de São Paulo. O caso em questão se passou na linha 3 – Vermelha, na altura da estação Bresser-Mooca, no sentido do centro. O sol lutava para desvencilhar-se das nuvens, tínhamos 15ºC de temperatura na cidade, conforme mostrava aqueles monitores dentro do vagão, entre um video e outro de entretenimento. Dentro do trem, calor senegalês.

Estava espremido de pé de frente à porta e ao lado de um daqueles assentos reservados a idosos, gestantes e tal. Nele, um rapaz de mais ou menos 20 anos dormia tranqüilamente. A viagem seguia sem problemas, apesar da sensação de estarmos dentro de uma lata de sardinhas.

Na estação Bresser-Mooca, uma jovem gestante entrou no vagão de maneira decidida, firme. Dei licença para passar e ela foi feito um foguete em direção ao sonolento viajante (aquele, no assento preferencial!). Ao se aproximar do dorminhoco, resvalou seu joelho no joelho dele que quase deu um pulo, assustado.
Ainda atordoado, ofereceu-se para segurar a bolsa da moça, esticando o braço com um sorriso amarelo.

– Dá aqui a bolsa. Eu seguro pra você.
– Não. Levante-se e deixe-me sentar.
– O que você tem melhor do que eu, pra vir reivindicar o lugar? Paguei o mesmo preço que você, minha filh…

Ele – e eu, que assistia a tudo atentamente – foi surpreendido por um sujeito que arrancou-lhe do assento violentamente.
Os outros passageiros começaram a gritar contra o pobre infeliz, a favor da moça e do brutamontes. Em comum acordo, arremessaram o raquítico rapaz para fora do metrô, quando este fez parada na estação Brás. As pessoas na plataforma não acreditavam no que viam. Até uma senhora idosa, que estava sentada num assento próximo da cena, soltou um grito antes da porta fechar-se completamente.

– Salafrário!

Saindo da estação, indo em direção à Sé, a jovem gestante começou a chorar. Todos em volta, ainda xingando o sujeito posto pra fora do vagão, tentaram acalmá-la, maldizendo a atitude do mal-educado rapaz. A moça – que parecia bastante confusa – balbuciou, vacilante:

– Vocês não entendem – choramingou a moça. E completou:
– Aquele desgraçado é o pai do meu bebê…

Em choque, os “justiceiros” de ocasião deixaram-na sentada e desceram, um a um, para fazer a baldeação. Eu também desci, em meio a algazarra, rumo à estação Vergueiro. Ela, com sua enorme barriga, partiu dentro da composição, melancolicamente, em direção a estação Barra Funda…

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Tarda, mas não falha…

le aguardava o ônibus que o levaria ao centro de São Paulo, no Terminal de Ônibus Cachoeirinha e, por pura ironia dos Deuses, veio-lhe à cabeça lembranças daquela que um dia amou. Confuso, perguntou-se por que lembranças de tempo tão remoto o visitavam. Resposta fácil: Culpa de um vendedor de CDs piratas, daqueles musicais, daquele tipo de ambulante que carrega seu produto naqueles carrinhos improvisados, com uma grande caixa de som e um tocador de CD que geralmente é um daqueles modelos automotivos. Tocava Pais e Filhos, da Legião Urbana e irremediavelmente várias lembranças vieram à sua cabeça. Um pouco de saudade, um pouco de sentimento de culpa por achar que não havia demonstrado todo seu amor a ela o deixou atordoado. Mas não havia motivos para remorso. Ela havia colocado um ponto final na história após muitos meses de dedicação, amor, carinho a um rapaz que só queria dar uns beijos de vez em quando. Espera aí: Mas ele não a amava? Ele tem em seu coração a certeza tardia de que sim, a amava. Mas o amor juvenil, incompreensivelmente, muitas vezes é tratado com certo medo, principalmente nos homens. Medo de não ser correspondido, medo de fazer papel de idiota diante dos amigos que, dizem, acham esse papo de amor coisa de menina (mas choram sozinhos à noite, na cama, por nutrir o mesmo sentimento por alguma outra garota mas não o diz por conta de todos esses motivos juvenis). Onde ela está agora, depois de todos esses anos? Ele não sabe a resposta. Mas sabe que, com o perdão do clichê, “é preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã…”

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Projeto cancelado

ser humano, ou homo sapiens sapiens (grande mestre Perillo!), caminha a passos largos rumo a sua extinção. Não tenho outra definição a dar para a descrença em tudo o que nós temos feito para provar que estamos no topo da pirâmide entre os seres vivos. A última que fiquei sabendo é o absurdo e até certo ponto patético hábito de alguns em ficar filmando mulheres nos ônibus, metrô, trens da CPTM. Explico melhor: Tive que passar em casa depois de um dia de aula, antes de seguir para o trabalho, pois havia esquecido de levar a chave de minha sala. Aproveitei para almoçar e o fiz assistindo a um daqueles programas vespertinos da TV aberta. Silvia Popovic e os deputados José Eduardo Martins Cardoso e Alda Marcoantonio discutiam essa nova “mania” da rapaziada: Eles aproveitam a superlotação dos ônibus e trens do Metrô/CPTM para, com seus celulares, filmarem as partes íntimas de mulheres. E o pior: Colocam seus videos no site YouTube. Talvez eu esteja errado, mas acho que isso ultrapassa os limites do voyeurismo , pois a divulgação de tais imagens implica numa agressão às mulheres filmadas. Ou não? O fato é que, depois de saber da nova “moda”, enterrei de vez meu projeto de fotografar as pessoas nos trens do Metrô e da CPTM. É claro que seriam flagrantes de expressões faciais, uma tentativa de desvendar ou até mesmo tentar traçar um perfil do usuário do transporte coletivo da Grande São Paulo. Eu vinha pensando nisso há algum tempo, mas já me censurava por achar que seria uma invasão de privacidade. Depois ver a reportagem, cheguei à conclusão de que não há mais limites. Lembrei-me de 1984, de George Orwell. Big Brother is watching you…

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Sampa é demais!

oje saí para trabalhar sem a menor pressa. Toltamente folgado em relação ao horário. De boa. Adiantado. Peguei o 3141 na av. Alvaro Ramos às 10h30 rumo à lida. Ônibus vazio, gente indo trabalhar. Ou não, sei lá.  A certa altura, percebi um zumzumzum na parte traseira do coletivo.  Tinha um sujeito lá, nem aí pra nada nem pra ninguém, cantarolando e observando a paisagem. Normal, nada de mais. Mas eu comecei a prestar atenção e me diverti muito com a “seleção” musical do cara. Ele tava desenterrando muito sucesso popular que eu de alguma maneira ouvi desde a minha infância.  O engraçado é que ele cantava um trecho  muito pequeno da música e já pulava pra outro “sucesso”.  Eu tava tão sem nada pra pensar que consegui memorizar alguns hits. Vamos a eles:

  • Cidadão – Zé Geraldo
  • Águas de Março – Tom Jobim
  • Exagerado – Cazuza
  • Love-me tender – Elvis Presley
  • Vamos fugir – Gilberto Gil
  • O segundo Sol – Cássia Eller
  • Pastor João e a igreja invisível (!) – Raul Seixas

Figuraça, não? Eu não tenho a menor autoridade (nem a intenção!) de dizer se o cara tinha algum “problema”. Mas era uma figura. Isto é fato! É ou não é?

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