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Marcel Duchamp é Corinthiano*

pós um frio e chuvoso feriado de 7 de Setembro, confesso ter pulado da cama somente após muita lamentação. Pé na rua, parti rumo ao ponto de ônibus, onde costumo pegar o trólebus até a faculdade.

Incrivelmente, o coletivo chegou logo, além de praticamente vazio. Tomei-o e, vencida a catraca, fui até o fundo do veículo, sentando-me na última fileira de bancos, onde deparei-me com um sujeito bem vestido numa casaca marrom e sapatos que brilhavam como diamante.

Cumprimentei-o. Tive como resposta a indiferença. Desconcertado sentei-me, olhando de soslaio em direção a ele – que parecia agitado, irrequieto. Balbuciava palavras desconexas e tinha à mão uma daquelas canetas tipo ‘pincel atômico’.

Ponto final da linha, portas abertas: ele soltou um palavrão impublicável – que fez acordar o cobrador – e saltou do ônibus, praguejando.

Antes de descer do coletivo, vi que o sujeito havia rabiscado uma frase na parede sob a janela do banco onde estava sentado:

“Marcel Duchamp é corinthiano”

Não sei dizer qual associação o tresloucado quis fazer entre o artista francês e o SCCP. Acredito, entretanto, que tal atitude deixaria envaidecido o criador dos famosos e intrigantes ready-mades¹. Ou será que não?

*Este texto inaugura a categoria “Pílulas do Cotidiano” onde, circunstancialmente, postarei pequenos textos literários sobre gente e situações do dia-a-dia.
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¹Principal estratégia artística de Duchamp, que utilizava objetos encontrados já prontos, às vezes acrescentando detalhes, outras vezes atribuindo-lhes títulos arbitrários.

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Mens sana in corpore sano

oltando pra casa depois de um dia de densa labuta ele ouviu, nas cadeiras imediatamente atrás da sua no ônibus onde viajava, dois senhores conversando sobre amenidades. As ruas esburacadas da zona norte de São Paulo não permitiam um exercício mais aprofundado de bisbilhotagem da conversa alheia, tal era o barulho ensurdecedor da carroceria chacoalhando. Mas conseguiu ouvir de um dos senhores, que levantara para descer no próximo ponto, a seguinte frase em tom professoral:

– É o que eu sempre digo, Dionisio. Mente sã, corpo são. Até amanhã, cuide-se!

Proferiu tal clichê e, ato contínuo, desceu do coletivo e adentrou uma farmácia num caminhar cambaleante, comum aos que alcançam a longevidade.

Tal frase e, principalmente, o ato de ver o velho senhor entrar numa drogaria, o fez lembrar de que havia marcado consulta a uma psiquiatra, numa tentativa de frear seus martírios internos. Seu humor voltara a ocilar, o sono sessara e um desânimo teimava em aparecer. Era preciso voltar à psicanálise.

A noite passou em passos vagarosos, o sono não veio. A melancolia, então, chegou e se instalou feito uma indesejada visitante. Numa tentativa de tomar as rédeas de sua mente, andou vacilante até o banheiro e vasculhou a gaveta do pequeno armário onde costumava guardar seus antidepressivos. Tudo que encontrou foram pílulas soltas, fracionadas, que descansavam no fundo do compartimento feito salva-vidas a espera de alguém para socorrer. Era impossível identificar que tipo de comprimidos aqueles farelos foram um dia, mas a esperança de um fugaz bem estar o fez raspar o fundo da gaveta e com aquela mistura de remédio, poeira e ácaros, arrematar um copo de água. Enquanto isso, uma testemunha incrédula assistia àquela cena patética. Era seu gato, que o fitava com uma mistura de curiosidade e desprezo. Foi um dos olhares mais longos que se tem notícia, certamente.

Passada a noite e com a certeza de que aquela mistura de comprimidos fracionados nada havia aliviado sua tensão, tomou uma ducha e partiu para o consultório onde havia marcado sua consulta. Não percebeu, por conta da noite mal dormida, que havia saído com duas horas de antecedência. Estranhou que a padaria em frente à sua casa ainda estava fechada e seguiu sua jornada em jejum, para tentar aliviar sua angústia o quanto antes. Chegou e encontrou a clínica fechada, deixando-o aturdido. Olhou para os dois lados da rua. Vazia. Virou-se novamente para a porta da clínica e decidiu sentar-se nos degraus da pequena escada que dava acesso ao estabelecimento médico. Ali, não demorou, caiu no sono.

O barulho da porta de aço da padaria do outro lado da rua não foi suficiente para acordá-lo. O português da panificadora olhou aquele sujeito sentado dormindo e, pensando se tratar de um bêbado sem forças para caminhar, levou um copo cheio de café e, dando um chacoalhão nada amistoso, falou:

– Toma esse café. Vais ficar melhor, filho. Toma e vá pra casa, sai dessa vida! Você parece ser um homem de bem, larga esse vício!

Nosso personagem ouviu, perplexo, aquele desconhecido falando. Não recusou o café, mas esperou o homem se virar e apontou-lhe o dedo médio. Neste ínterim, o carro da doutora encostou no meio fio e ela desceu do veículo, apressada, em direção à porta da clínica. Passou por ele feito um foguete, girou a chave apressadamente e adentrou, como se ninguém estivesse ali, deixando o sujeito sentindo-se um homem invisível. Bastante confuso, o pobre diabo também entrou na clínica abruptamente, chamando a atenção da médica, que se queixava enquanto depositava seu jaleco de tom branco-amarelado sobre um surrado safá da sala de espera.

– Ah, que bom que o senhor chegou cedo! Podemos, assim, adiantar a consulta, pois meu dia hoje vai ser muito corrido!

Nosso herói observou a pantomima da médica e chegou à conclusão de que seria melhor acabar logo com aquilo.

Demonstrando total desinteresse pela figura que atendia, a médica fez algumas poucas perguntas sobre o cotidiano do paciente, fazendo anotações em um pequeno bloco de notas. Ao final de parcos cinco minutos, deu por encerrada a consulta dizendo:

– Vamos aumentar a dosagem da sua medicação. Nada significativo. Volte no mês que vem para verificarmos a evolução de seu estado psíquico.
– Doutora, eu não consigo dormir durante a noite, mas o sono me domina durante o dia e…
– Vou receitar este outro remédio, pra você conseguir chegar em casa. Não hesite em me procurar, se achar necessário. Sabes que estou aqui para ajudar-te.

Neste momento, a veloz doutora carimbou violentamente a guia médica com seu carimbo padrão, assinou e entregou ao paciente – sem fitar-lhe os olhos – despedindo-se. Este, atônito, levantou e tomou o caminho da rua sem nada dizer.

Trinta e cinco dias após a consulta, a médica ligou para a casa do pobre diabo para saber por que ele não havia marcado a consulta de retorno. O telefone tocou, tocou, tocou. Ninguém atendeu. A campainha do velho telefone poderia ter seu volume multiplicado centenas de vezes e ainda assim seria insuficiente para fazer levantar o corpo inerte prostrado, havia dias, na velha cama…

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Sampa é demais!

oje saí para trabalhar sem a menor pressa. Toltamente folgado em relação ao horário. De boa. Adiantado. Peguei o 3141 na av. Alvaro Ramos às 10h30 rumo à lida. Ônibus vazio, gente indo trabalhar. Ou não, sei lá.  A certa altura, percebi um zumzumzum na parte traseira do coletivo.  Tinha um sujeito lá, nem aí pra nada nem pra ninguém, cantarolando e observando a paisagem. Normal, nada de mais. Mas eu comecei a prestar atenção e me diverti muito com a “seleção” musical do cara. Ele tava desenterrando muito sucesso popular que eu de alguma maneira ouvi desde a minha infância.  O engraçado é que ele cantava um trecho  muito pequeno da música e já pulava pra outro “sucesso”.  Eu tava tão sem nada pra pensar que consegui memorizar alguns hits. Vamos a eles:

  • Cidadão – Zé Geraldo
  • Águas de Março – Tom Jobim
  • Exagerado – Cazuza
  • Love-me tender – Elvis Presley
  • Vamos fugir – Gilberto Gil
  • O segundo Sol – Cássia Eller
  • Pastor João e a igreja invisível (!) – Raul Seixas

Figuraça, não? Eu não tenho a menor autoridade (nem a intenção!) de dizer se o cara tinha algum “problema”. Mas era uma figura. Isto é fato! É ou não é?

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