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Desencontros

maram-se com toda a força do mundo. Eram jovens, cheios de vida, cheios de planos – e todos os clichês que costumam deitar sobre a juventude.
Juraram ser para sempre. Mas não aconteceu – como quase sempre costuma ser. Pudera, tinham apenas 16 anos e uma revolução interna em cada um. As coisas mudariam, a forma de pensar mudaria, os sonhos mudariam. O tempo passou e os caminhos dividiram-se numa dessas bifurcações que a vida costuma nos apresentar.

Ele viajava de pé no Metrô quase vazio do horário pós almoço. Ela, sentada num banco próximo a ele, lia uma revista. Estava diferente. Sua pele ainda brilhava, seus olhos ainda brilhavam. Mas uma expressão mais serena, adquirida com a maturidade, iluminava seu rosto.

Ao aviso de chegada à estação São Joaquim, ela levantou-se e deixou o trem, sem perceber a presença de seu observador. Este, sentou-se no banco antes ocupado por ela. Teria sido a última vez que sentiu o calor daquela mulher que ficara para trás. Teria sido a última vez que seus caminhos se cruzaram.

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Vida segue

ram dois grandes amigos, conforme disse a musa. Viajavam pela Linha 2/Verde. Iam da estação Sacomã, num vagão quase vazio, rumo à estação Paraíso. Conversavam animadamente sobre amenidades e observaram, pelo reflexo da janela, que atrás de seus bancos estavam duas belas mulheres que conversavam também. Era uma conversa mais tensa, talvez. Semblantes fechados, graves. Isso parece não ter sensibilizado os dois amigos, que seguiram conversando e, vez ou outra, buscando um olhar das vizinhas de viagem. Lá fora, chuva forte. Puderam percebê-la ao passarem pela estação Imigrantes, que fica na superfície. Maldisseram a sorte de não estarem portando seus guarda-chuvas, restando-lhes a torcida pelo fim do aguaceiro.

Na estação Ana Rosa, as garotas desceram rapidamente, quase que simultaneamente ao toque de fechamento das portas. De tão compenetradas em seus diálogos, abandonaram esqueceram seus guarda-chuvas no banco onde viajavam. Os rapazes rapidamente pegaram o que seria a salvação da noite, a chance de chegarem secos em suas respectivas casas. Ou, a chance de praticarem uma boa ação antes do fim do dia.

O caminho da plataforma até a SSO, passando por uma quase infinita escada rolante, foi feito em silêncio. Um aguardava a reação do outro para saber o que fazer. Ao chegar em frente à sala envidraçada da estação, estancaram. O funcionário do Metrô os observou com certa curiosidade e, percebendo que precisaria tomar a iniciativa para chegar a algum desfecho, perguntou:

– Posso ajudar?

Os dois gaguejaram, entreolharam-se com indisfarçável culpa e concluíram:

– Encontramos estes guarda-chuvas, esquecidos no trem onde viajávamos. Viemos entregá-los.

– Obrigado! Vou encaminhar para o Achados e Perdidos da estação Sé. O Metrô de São Paulo agradece a ajuda de vocês – disse em tom cerimonial.

Os dois, calados, foram embora. A chuva, a esta altura, já havia cessado.

Vida segue…

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Ousadia assentida

elevador poderia ficar ali parado por horas, dado o blecaute ter acontecido tão tarde da noite. Mas isso era o que menos importava pra ela. Aquele beijo a surpreendeu, mas, mais do que isso, a levou a um estado de euforia elevadíssimo. Quem ousaria? Mas foi tão bom!

A preocupação com o trabalho, com seus pequenos problemas em casa passavam em seu pensamento como historietas de algum folhetim. O gato ficaria sem sua refeição noturna. Quem se importa?

Importa apenas o ali, o agora. Tentou imaginar quem poderia ter tomado atitude tão agradavelmente ousada. Moreno? Alto? Não importava. A culpa tentou se aninhar em sua confusa cabeça, mas não. Não agora. Que dure até amanhã!

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Em tempo: Esta é uma espécie de Fanfic da obra do escritor Moacyr Scliar. A proposta, da professora Tânia Sandroni, era a de produzir um texto adaptado – com narrativa onisciente – que daria continuidade ao conto “O beijo no escuro”, do autor gaúcho.

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Final melancólico

á quem diga que a intolerância, os nervos a flor da pele, dominam o dia-a-dia no transporte coletivo da cidade de São Paulo. O caso em questão se passou na linha 3 – Vermelha, na altura da estação Bresser-Mooca, no sentido do centro. O sol lutava para desvencilhar-se das nuvens, tínhamos 15ºC de temperatura na cidade, conforme mostrava aqueles monitores dentro do vagão, entre um video e outro de entretenimento. Dentro do trem, calor senegalês.

Estava espremido de pé de frente à porta e ao lado de um daqueles assentos reservados a idosos, gestantes e tal. Nele, um rapaz de mais ou menos 20 anos dormia tranqüilamente. A viagem seguia sem problemas, apesar da sensação de estarmos dentro de uma lata de sardinhas.

Na estação Bresser-Mooca, uma jovem gestante entrou no vagão de maneira decidida, firme. Dei licença para passar e ela foi feito um foguete em direção ao sonolento viajante (aquele, no assento preferencial!). Ao se aproximar do dorminhoco, resvalou seu joelho no joelho dele que quase deu um pulo, assustado.
Ainda atordoado, ofereceu-se para segurar a bolsa da moça, esticando o braço com um sorriso amarelo.

– Dá aqui a bolsa. Eu seguro pra você.
– Não. Levante-se e deixe-me sentar.
– O que você tem melhor do que eu, pra vir reivindicar o lugar? Paguei o mesmo preço que você, minha filh…

Ele – e eu, que assistia a tudo atentamente – foi surpreendido por um sujeito que arrancou-lhe do assento violentamente.
Os outros passageiros começaram a gritar contra o pobre infeliz, a favor da moça e do brutamontes. Em comum acordo, arremessaram o raquítico rapaz para fora do metrô, quando este fez parada na estação Brás. As pessoas na plataforma não acreditavam no que viam. Até uma senhora idosa, que estava sentada num assento próximo da cena, soltou um grito antes da porta fechar-se completamente.

– Salafrário!

Saindo da estação, indo em direção à Sé, a jovem gestante começou a chorar. Todos em volta, ainda xingando o sujeito posto pra fora do vagão, tentaram acalmá-la, maldizendo a atitude do mal-educado rapaz. A moça – que parecia bastante confusa – balbuciou, vacilante:

– Vocês não entendem – choramingou a moça. E completou:
– Aquele desgraçado é o pai do meu bebê…

Em choque, os “justiceiros” de ocasião deixaram-na sentada e desceram, um a um, para fazer a baldeação. Eu também desci, em meio a algazarra, rumo à estação Vergueiro. Ela, com sua enorme barriga, partiu dentro da composição, melancolicamente, em direção a estação Barra Funda…

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100 anos em cinco minutos

Corinthians completou 100 anos de uma vida de glórias, conquistas mas, principalmente, de muita paixão e devoção de sua Fiel Torcida. Sim, eu também faço parte deste bando de loucos – ou, se preferirem, faço parte da República Popular do Corinthians, com certidão de nascimento e RG personalizados.

Esse tipo de estratégia de marketing é interessante no que diz respeito ao aumento de arrecadação de receitas, fundamental para a manutenção de um time competitivo, além de outras despesas com os esportes amadores e a parte social. Mas, ajuda a arrebanhar novos torcedores? Tenho minhas dúvidas.

Mas, falando em paixão, é inevitável buscar na memória os feitos, as conquistas e até as mais dolorosas derrotas para tentar entender esse sentimento único, que é o Corinthianismo. Desde os tempos dos jogos no campo do Lenheiro, no Bom Retiro, até os dias de hoje, é notável a trajetória desse time que ousou ingressar na liga de futebol formada pela elite paulistana – elite que disse que “O Clube não sobreviveria ao próximo inverno”.

Minha História

Em 1977, aos quatro anos de idade, tive a noção do que é o Corinthianismo.
Minha irmã Bel, na época com 13 anos, apareceu com um curativo enorme na cabeça, causado por uma queda do capô do Opala de um vizinho que, infelizmente, não me recordo o nome. Ela, como muitos outros alucinados Corinthianos, saiu em carreata pela cidade para comemorar o fim do jejum de 23 anos de títulos, graças ao pé de anjo, Basílio.

Eu não acompanhva muito o futebol e lembro que – vejam só! – eu tentei ser palmeirense (motivado pelo meu irmão Adriano, seis anos mais velho). Meu pai, Corinthiano, ficava muito pouco tempo em casa, por conta de viagens que fazia a serviço de uma grande construtora. Com isso, meu irmão tentava fazer com que eu virasse casaca. Lembro-me dele dizendo que a ‘Academia’ havia atropelado o Timão em ’74, calando o estádio naquela final do Paulista que culminou na saída do Rivellino. Eu tentei ser palmeirense por um único dia, mas recuei e disse ao meu irmão: “Não consigo. Eu gosto é do Corinthians, apesar da falta de títulos”.

Nos anos de 1982, 1983, lembro que jogávamos bola na quadra da escola, onde a maioria dos moleques torcia para o Timão. E cantávamos: “Domingo, eu vou lá no Morumbiiii, a Fiel vai explodiiiir…”. A Democracia Corinthiana dava as cartas no Parque São Jorge, mas a gente não tinha noção do que aquilo representava.

Quando fui ao estádio pela primeira vez, o Biro Biro já jogava pelo Corinthians. Foi quando eu percebi o que era a raça corinthiana, apesar de, hoje, saber que Zé Maria, Ruço, entre outros ídolos, já haviam dado o sangue em campo pelo time do Povo. O Corinthians se mostra grande justamente por essa particular característica: Faz sofrer o teu Povo Fiel, mas recompensa no campo de batalha, com vitórias épicas e consagradoras. O que o torcedor rival precisa entender é justamente isto: Para nós, Corinthianos, vitória por 1X0 é goleada.

Peguei-me pensando, nesta data especial, em dois momentos antagônicos na minha trajetória de torcedor Corinthiano. Uma derrota que marcou (foi a última vez que chorei por causa de uma derrota) foi no Campeonato Paulista de 1984. Serginho Chulapa fez 1X0, tirando a tricampeonato de nossas mãos. Eu não chorei nas derrotas para nosso arquirrival Palmeiras nos jogos da Libertadores. O choque foi grande, mas o silêncio sepulcral que tomou conta do bar onde acompanhávamos as partidas tornou desnecessário a lágrima. Sobre, especificamente, esta partida, chego à conclusão de que NÓS santificamos o goleiro Marcos. Esta é a verdade, amigos. Tivesse pego um pênalti contra outro adversário e a história seria outra, certamente. Mas defender um pênalti que eliminaria o Corinthians da competição continental, alçou o goleiro Marcos ao Olimpo dos jardins suspensos da Água Branca. Isto é fato.

A vitória que ficará marcada para sempre em minha memória foi contra o Santos, também. Além deste clássico ter ficado marcado por inúmeras situações eletrizantes, foi o último no qual assisti junto de minha mãe. Ela não era nenhuma fanática, mas vibrou ao ver eu e meu pai abraçados, chorando de alegria, comemorando o gol marcado no último minuto pelo Ricardinho. Este jogo teve dois pênaltis desperdiçados pelos dois times. Pelo Santos, Rincón era o batedor oficial, mas deixou Dodô – que buscava a artilharia do campeonato – bater e mandar na trave. Pelo Corinthians, Marcelinho também mandou a bola na trave, em pênalti sofrido por Ewerthon. Ainda assim, mandamos 2X1 no time da baixada santista e chegamos à final do Paulista, enfretando o Botafogo de Ribeirão Preto. Na fila desde 1984, foi a vez do Santos chorar.

Se eu fosse fazer um levantamento das sensações experimentadas enquanto torcedor Corinthiano, certamente eu poderia desenvolver um verdadeiro compêndio. Nestes 100 anos completados hoje, tenho a plena certeza de que o Corinthians honrou sua história, sua gente. Os sapateiros, operários, os estivadores, os carroceiros, os descamisados que expulsaram os cheirosos do Parque da Luz, descansam sabedouros de que valeu a pena.

Aos pintores de casa Joaquim Ambrósio, Antônio Pereira e César Nunes, eu digo: Valeu a pena!

Ao sapateiro Rafael Perrone, eu digo: Valeu a pena!

Ao motorista Anselmo Correia, eu digo: Valeu a pena!

Ao fundidor Alexandre Magnani, eu digo: Valeu a pena!

Ao macarroneiro Salvador Lopomo, eu digo: Valeu a pena!

Ao trabalhador braçal João da Silva, eu digo: Valeu a pena!

Ao alfaiate Antônio Nunes, eu digo: Valeu a pena!

Histórias não faltam, entre lembranças e depoimentos de amigos que vivenciaram as alegrias e angústias de Ser Corinthiano. E assim será, para todo o sempre.

Até o FIM.

VIVA O CORINTHIANS!

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Mens sana in corpore sano

oltando pra casa depois de um dia de densa labuta ele ouviu, nas cadeiras imediatamente atrás da sua no ônibus onde viajava, dois senhores conversando sobre amenidades. As ruas esburacadas da zona norte de São Paulo não permitiam um exercício mais aprofundado de bisbilhotagem da conversa alheia, tal era o barulho ensurdecedor da carroceria chacoalhando. Mas conseguiu ouvir de um dos senhores, que levantara para descer no próximo ponto, a seguinte frase em tom professoral:

– É o que eu sempre digo, Dionisio. Mente sã, corpo são. Até amanhã, cuide-se!

Proferiu tal clichê e, ato contínuo, desceu do coletivo e adentrou uma farmácia num caminhar cambaleante, comum aos que alcançam a longevidade.

Tal frase e, principalmente, o ato de ver o velho senhor entrar numa drogaria, o fez lembrar de que havia marcado consulta a uma psiquiatra, numa tentativa de frear seus martírios internos. Seu humor voltara a ocilar, o sono sessara e um desânimo teimava em aparecer. Era preciso voltar à psicanálise.

A noite passou em passos vagarosos, o sono não veio. A melancolia, então, chegou e se instalou feito uma indesejada visitante. Numa tentativa de tomar as rédeas de sua mente, andou vacilante até o banheiro e vasculhou a gaveta do pequeno armário onde costumava guardar seus antidepressivos. Tudo que encontrou foram pílulas soltas, fracionadas, que descansavam no fundo do compartimento feito salva-vidas a espera de alguém para socorrer. Era impossível identificar que tipo de comprimidos aqueles farelos foram um dia, mas a esperança de um fugaz bem estar o fez raspar o fundo da gaveta e com aquela mistura de remédio, poeira e ácaros, arrematar um copo de água. Enquanto isso, uma testemunha incrédula assistia àquela cena patética. Era seu gato, que o fitava com uma mistura de curiosidade e desprezo. Foi um dos olhares mais longos que se tem notícia, certamente.

Passada a noite e com a certeza de que aquela mistura de comprimidos fracionados nada havia aliviado sua tensão, tomou uma ducha e partiu para o consultório onde havia marcado sua consulta. Não percebeu, por conta da noite mal dormida, que havia saído com duas horas de antecedência. Estranhou que a padaria em frente à sua casa ainda estava fechada e seguiu sua jornada em jejum, para tentar aliviar sua angústia o quanto antes. Chegou e encontrou a clínica fechada, deixando-o aturdido. Olhou para os dois lados da rua. Vazia. Virou-se novamente para a porta da clínica e decidiu sentar-se nos degraus da pequena escada que dava acesso ao estabelecimento médico. Ali, não demorou, caiu no sono.

O barulho da porta de aço da padaria do outro lado da rua não foi suficiente para acordá-lo. O português da panificadora olhou aquele sujeito sentado dormindo e, pensando se tratar de um bêbado sem forças para caminhar, levou um copo cheio de café e, dando um chacoalhão nada amistoso, falou:

– Toma esse café. Vais ficar melhor, filho. Toma e vá pra casa, sai dessa vida! Você parece ser um homem de bem, larga esse vício!

Nosso personagem ouviu, perplexo, aquele desconhecido falando. Não recusou o café, mas esperou o homem se virar e apontou-lhe o dedo médio. Neste ínterim, o carro da doutora encostou no meio fio e ela desceu do veículo, apressada, em direção à porta da clínica. Passou por ele feito um foguete, girou a chave apressadamente e adentrou, como se ninguém estivesse ali, deixando o sujeito sentindo-se um homem invisível. Bastante confuso, o pobre diabo também entrou na clínica abruptamente, chamando a atenção da médica, que se queixava enquanto depositava seu jaleco de tom branco-amarelado sobre um surrado safá da sala de espera.

– Ah, que bom que o senhor chegou cedo! Podemos, assim, adiantar a consulta, pois meu dia hoje vai ser muito corrido!

Nosso herói observou a pantomima da médica e chegou à conclusão de que seria melhor acabar logo com aquilo.

Demonstrando total desinteresse pela figura que atendia, a médica fez algumas poucas perguntas sobre o cotidiano do paciente, fazendo anotações em um pequeno bloco de notas. Ao final de parcos cinco minutos, deu por encerrada a consulta dizendo:

– Vamos aumentar a dosagem da sua medicação. Nada significativo. Volte no mês que vem para verificarmos a evolução de seu estado psíquico.
– Doutora, eu não consigo dormir durante a noite, mas o sono me domina durante o dia e…
– Vou receitar este outro remédio, pra você conseguir chegar em casa. Não hesite em me procurar, se achar necessário. Sabes que estou aqui para ajudar-te.

Neste momento, a veloz doutora carimbou violentamente a guia médica com seu carimbo padrão, assinou e entregou ao paciente – sem fitar-lhe os olhos – despedindo-se. Este, atônito, levantou e tomou o caminho da rua sem nada dizer.

Trinta e cinco dias após a consulta, a médica ligou para a casa do pobre diabo para saber por que ele não havia marcado a consulta de retorno. O telefone tocou, tocou, tocou. Ninguém atendeu. A campainha do velho telefone poderia ter seu volume multiplicado centenas de vezes e ainda assim seria insuficiente para fazer levantar o corpo inerte prostrado, havia dias, na velha cama…

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Sobre o medo do outro

or diversas vezes o jovial senhor bebericou, só, em sua mesa, seu chope acompanhado de deliciosos acepipes na simpática lanchonete situada no andar térreo de um dos mais emblemáticos edifícios do centro de São Paulo, o Copan. ‘Seo’ Cruz, viúvo havia nove anos, bancário aposentado, tinha na companhia dos poucos funcionários daquele estabelecimento seus momentos de descontração e entretenimento durante as tardes de domingo. Tardes que denotavam uma São Paulo, pasmem, silenciosa, provinciana, daquele jeito que nos é impossível imaginar durante os dias febris e alucinados de segunda a sexta feira. Um lugar que ficava de frente para a avenida Ipiranga, quase já na rua da Consolação, onde crianças corriam atrás da bola, jovens praticavam skate e senhoras passavam com seus carrinhos rumo à feira da praça Roosevelt. Cenário tranquilo, quase inverossímil para quem caminha por ali durante a semana. Seo Cruz era um homem de sorriso fácil, bom papo, excelente ouvinte, que fazia uso de sua grande experiência e poder de comunicação para contar histórias do futebol de várzea paulistano. Histórias que tomavam a atenção de todos no recinto, até mesmo a proprietária da lanchonete, dona Leonor, que dava uma pausa nos afazeres para prestar atenção nas histórias contadas com exacerbado requinte de detalhes pelo Seo Cruz, apesar dela quase nada entender de futebol. Apenas um dos que ali estavam não dava a menor atenção para as histórias do simpático senhor. Era um recém contratado copeiro, vindo do Ceará, de muito boas referências profissionais, mas de poucas palavras e de fisionomia vacilante, medrosa. Josemiro, este era seu nome, trabalhava com muita correção, nunca deixava sujas as poucas mesas que ali haviam, nem descuidava do belo balcão de mogno que contornava a pequena ilha onde ficavam os atendentes a servir o sempre-no-ponto café spresso, famoso na região. Mas não participava da algazarra que os outros dois atendentes faziam no lugar, o que de certo modo o deixava relegado apenas à labuta, com quase nenhuma socialização. Isso, de certo modo, deixava Seo Cruz um tanto ressabiado. Homem de excelente comunicação e sempre recebido com sorrisos e gentilezas, travava toda vez que chegava ao local e encontrava apenas Josemiro. O atendimento corria de maneira cordata, é fato. Mas o velho senhor sempre tentava entender o porque de tanta seriedade, desvio de olhar, falta de assunto. Não faltaram tentativas de tentar “ganhar” a simpatia do taciturno serviçal. Mas não havia abertura, a conversa não deslanchava. Isso foi levando o velho contador de causos a nutrir certa antipatia pelo copeiro. Seo Cruz passou a evitar adentrar a lanchonete quando esta contava apenas com seu “desafeto” a servir. Uma certa agonia foi tomando conta dos seus momentos no local. Medo do outro.

Uma semana se passou, Seo Cruz ausentou-se da metrópole em visita à sua filha em Santos, para conhecer o neto que acabara de nascer. Voltando de viagem, num daqueles belos domingos de Sol na terra de Piratininga, o velho senhor subiu os quatro lances de escadas do pequeno predinho localizado a uma quadra do Copan. Mal alcançou a porta de sua quitinete, ja pensou em deixar sua pequena valise de viagem para ir ao encontro dos companheiros na festejada lanchonete. Desceu rapidamente os andares e ganhou a rua, caminhando com um largo sorriso nos lábios. Chegando lá, encontrou dona Leonor recebendo o pagamento de um freguês no caixa e Josemiro limpando o belo balcão escuro da lanchonete. O sorriso lhe sumiu, e um pesar tomou conta de si. “Ele vai me servir? Não merecia sorte melhor após me ausentar por todos esses dias?”. Automaticamente, sentou à sua costumeira mesa próxima à porta, de vista privilegiada do local e da rua, e ficou a esperar e torcer que dona Leonor se livrasse do freguês-falador ao caixa, para lhe servir um chope. Pegou o caderno de esportes dum jornal esquecido na mesa ao lado e ficou ali, lendo sobre futebol. Como dona Leonor adentrou uma pequena saleta ao fundo da lanchonete, Josemiro caminhou em direção à mesa de Seo Cruz, que esperava apenas uma palavra para descarregar toda sua angústia, tirar suas satisfações com o “cara-feia” do lugar. Qual não foi sua surpresa quando, num sorriso discreto mas sincero, Josemiro lançou:
“Senti sua falta, Seo Cruz. E o netinho? Já ganhou a camisa do Corinthians?” Bastou isso para o sorriso e a alegria tomar conta do velho e ele responder, com muito entusiasmo: “Ele é palmeirense, meu filho! E cadê aqueles dois moleques vagabundos que trabalham aqui? Estão se escondendo do trabalho como sempre?” E os dois ficaram conversando, animadamente, sobre futebol e outras amenidades, como se fossem amigos de longa data.

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