Vida segue

ram dois grandes amigos, conforme disse a musa. Viajavam pela Linha 2/Verde. Iam da estação Sacomã, num vagão quase vazio, rumo à estação Paraíso. Conversavam animadamente sobre amenidades e observaram, pelo reflexo da janela, que atrás de seus bancos estavam duas belas mulheres que conversavam também. Era uma conversa mais tensa, talvez. Semblantes fechados, graves. Isso parece não ter sensibilizado os dois amigos, que seguiram conversando e, vez ou outra, buscando um olhar das vizinhas de viagem. Lá fora, chuva forte. Puderam percebê-la ao passarem pela estação Imigrantes, que fica na superfície. Maldisseram a sorte de não estarem portando seus guarda-chuvas, restando-lhes a torcida pelo fim do aguaceiro.

Na estação Ana Rosa, as garotas desceram rapidamente, quase que simultaneamente ao toque de fechamento das portas. De tão compenetradas em seus diálogos, abandonaram esqueceram seus guarda-chuvas no banco onde viajavam. Os rapazes rapidamente pegaram o que seria a salvação da noite, a chance de chegarem secos em suas respectivas casas. Ou, a chance de praticarem uma boa ação antes do fim do dia.

O caminho da plataforma até a SSO, passando por uma quase infinita escada rolante, foi feito em silêncio. Um aguardava a reação do outro para saber o que fazer. Ao chegar em frente à sala envidraçada da estação, estancaram. O funcionário do Metrô os observou com certa curiosidade e, percebendo que precisaria tomar a iniciativa para chegar a algum desfecho, perguntou:

– Posso ajudar?

Os dois gaguejaram, entreolharam-se com indisfarçável culpa e concluíram:

– Encontramos estes guarda-chuvas, esquecidos no trem onde viajávamos. Viemos entregá-los.

– Obrigado! Vou encaminhar para o Achados e Perdidos da estação Sé. O Metrô de São Paulo agradece a ajuda de vocês – disse em tom cerimonial.

Os dois, calados, foram embora. A chuva, a esta altura, já havia cessado.

Vida segue…

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Ciberespaço, esta “terra sem lei”

A conclusão – equivocada, diga-se, de que o Brasil foi dividido ao meio nestas eleições presidenciais fez surgir diversas manifestações racistas e xenófobas na Internet – esse território sem lei onde, muitas vezes, pessoas protegidas pelo anonimato disparam ilações, dossiês e correntes carregadas de preconceito despejadas em caixas de correio eletrônico alheias.

A estudante de Direito Mayara Petruso abriu mão desse anonimato e pode vir a pagar por isso. Suas declarações nas redes sociais Twitter e Facebook serviram para alguma coisa, ironicamente. Fez acender a luz de alerta, trazendo ao debate a necessidade da regulação da internet, onde atos de racismo, xenofobia, homofobia, além de outros tipos de má conduta devem ser condenados e seus responsáveis punidos exemplarmente.

Urge acabar com o anonimato no ciberespaço, responsabilizando todo usuário pelo conteúdo publicado em sites, blogues e fóruns de discussão. O sistema de rastreamento de endereços IP (Internet Protocol) precisa ser aperfeiçoado e as autoridades competentes devem fechar o cerco a portais como o Google – que reluta em fornecer os dados fundamentais para investigações feitas pelas delegacias especializadas em crimes virtuais, que vêm investigando usuários responsáveis por comunidades que cometem os mais diversos crimes de preconceito em sua rede social, o Orkut. Não se pode dar mais espaço a estes fora-da-lei.
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Em tempo: Este é um esboço de artigo escrito em avaliação acadêmica, aplicada às vésperas da eleição que alçou a petista Dilma Rousseff à Presidência da República. O tema – crimes de preconceito na internet – foi sugerido pelo professor Eduardo Rocha.

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Ousadia assentida

elevador poderia ficar ali parado por horas, dado o blecaute ter acontecido tão tarde da noite. Mas isso era o que menos importava pra ela. Aquele beijo a surpreendeu, mas, mais do que isso, a levou a um estado de euforia elevadíssimo. Quem ousaria? Mas foi tão bom!

A preocupação com o trabalho, com seus pequenos problemas em casa passavam em seu pensamento como historietas de algum folhetim. O gato ficaria sem sua refeição noturna. Quem se importa?

Importa apenas o ali, o agora. Tentou imaginar quem poderia ter tomado atitude tão agradavelmente ousada. Moreno? Alto? Não importava. A culpa tentou se aninhar em sua confusa cabeça, mas não. Não agora. Que dure até amanhã!

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Em tempo: Esta é uma espécie de Fanfic da obra do escritor Moacyr Scliar. A proposta, da professora Tânia Sandroni, era a de produzir um texto adaptado – com narrativa onisciente – que daria continuidade ao conto “O beijo no escuro”, do autor gaúcho.

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Pensando a Previdência

Reforma da Previdência: Pra ontem! Charge: Gilmar

Deixada de lado em mais uma campanha eleitoral, a discussão sobre a reforma do sistema previdenciário brasileiro se mostra cada vez mais urgente. Nem mesmo as cenas de confrontos entre estudantes, sindicalistas e trabalhadores com a polícia francesa fizeram o tema ser lembrado pelos nossos políticos em campanha. Tais confrontos – diga-se, ocorreram no país com as regras mais brandas para se alcançar a aposentadoria plena na Europa, excetuando-se o lado leste do continente.

A proposta aprovada em segundo turno pelo Senado francês elevou a idade mínima para a aposentadoria de 60 para 62 anos. Parece pouco, para um país que perdeu a capacidade de renovar sua força trabalhadora – como toda a Europa, aliás.

No Brasil, os seguidos anos com déficit nas contas da Previdência não parecem sensibilizar sindicatos e trabalhadores. Tratar do assunto deve deixar de ser tabu num país que ainda conta com um número de aposentados bastante inferior aos trabalhadores que contribuem com a Previdência. A presidente eleita Dilma Rousseff, com maioria nas duas casas legislativas, tem a grande chance de promover essa reforma. Evitar o colapso da Previdência deve estar acima de interesses políticos e deve ser tratado como prioridade pelo novo governo. Um dos pontos fundamentais da discussão é a questão das aposentadorias dos funcionários públicos, que apresenta enorme disparidade para os trabalhadores da iniciativa privada. Senão, vejamos: com 938 mil segurados, a União teve, no primeiro semestre deste ano, um déficit de R$25 bilhões, um absurdo se comparado ao déficit de R$22,6 bilhões no INSS, que cuida da aposentadoria de 27,5 milhões de aposentados.

A unificação das aposentadorias, a regulamentação da emenda Constitucional que propôs, em 2003, a adoção de um teto único para os trabalhadores da iniciativa privada e dos servidores públicos, além de uma campanha para inserir trabalhadores informais na arrecadação, deve ser colocada na pauta de discussões do Congresso Nacional e do Senado. O Brasil deve aproveitar o chamado bônus demográfico – quando uma parcela maior de adultos trabalha e sustenta frações menores de idosos e crianças – que deverá ter seu ocaso em 2050, quando o país terá, segundo o IBGE, 64 milhões de pessoas acima de 60 anos. Parece natural que um país cujos cidadãos atingem taxas de longevidade cada vez mais “européias”, adotem medidas que, apesar de impopulares no presente, promovam um futuro melhor para seus aposentados.

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Ocaso de um arrivista

Serra: Acabou. Foto/Agência Brasil

Ao final de um dos pleitos mais desestimulantes que testemunhei, a petista Dilma Rousseff venceu o tucano José Serra com uma margem de 12% de vantagem, como previam os quatro principais institutos de pesquisa brasileiros. As abstenções, previsíveis, mostraram mais de 20 milhões de descontentes brasileiros, que “deram de ombros”, preferindo pegar a estrada num feriado ensolarado.

A vitória da candidata petista teve, logicamente, grande ajuda da popularidade do presidente Lula – que chega ao final de seu mandato batendo recordes de aprovação. Como Dilma conduzirá o país ainda é uma incógnita. Com maioria na Câmara e no Senado, poderá propor mudanças estruturais, como as reformas da previdência, as reformas política e tributária – mas estas são questões para serem discutidas mais adiante. Simpáticos ou não à sua trajetória, só podemos torcer para que conduza o país com seriedade. E para TODOS, claro.

A questão central deste post, entretanto, é outra: Escrevo para comentar sobre o melancólico fim político do candidato José Chirico Serra. Este senhor que, lamentavelmente, ajudou a “desconstruir” seu partido levando-o a andar – já há algum tempo – de braços dados com a extrema direita brasileira. Este senhor que fez ressurgir gente como a TFP, a TERNUMA , agentes fundamentais para a sustentação do regime ditatorial que dominou o Brasil entre 1964 e 1985.

Este senhor – que tanto bradou pela liberdade de expressão, pela liberdade de imprensa – tem o costume de “pedir a cabeça” de jornalistas que o questionam com maior veemência. Heródoto Barbeiro e Márcia Peltier são apenas alguns nesta triste lista.

Este senhor que abandonou a prefeitura e, posteriormente, o governo do Estado de São Paulo, em busca de sua grande ambição: chegar à presidência do Brasil. Aliás, dentro do ninho tucano, é sabido que tratorou Aécio Neves e Tasso Jereissati para ter seu nome à frente da oposição em 2002. Em 2006, não esperava pela “peitada” de Alckmin. E o abandonou na campanha… Em 2010, atropelou Aécio novamente – e o resultado da eleição poderia ser diferente com o mineiro como cabeça da coligação. Agora, Inês é morta…

Ao final de seu patético discurso, concluí: Sua iminente morte política abrirá caminho para que o PSDB retome seu caminho de dignidade. Sem Índios. Longe do DEM. Pela memória de Covas e Montoro. O Brasil pode mais sem você, Serra.

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Final melancólico

á quem diga que a intolerância, os nervos a flor da pele, dominam o dia-a-dia no transporte coletivo da cidade de São Paulo. O caso em questão se passou na linha 3 – Vermelha, na altura da estação Bresser-Mooca, no sentido do centro. O sol lutava para desvencilhar-se das nuvens, tínhamos 15ºC de temperatura na cidade, conforme mostrava aqueles monitores dentro do vagão, entre um video e outro de entretenimento. Dentro do trem, calor senegalês.

Estava espremido de pé de frente à porta e ao lado de um daqueles assentos reservados a idosos, gestantes e tal. Nele, um rapaz de mais ou menos 20 anos dormia tranqüilamente. A viagem seguia sem problemas, apesar da sensação de estarmos dentro de uma lata de sardinhas.

Na estação Bresser-Mooca, uma jovem gestante entrou no vagão de maneira decidida, firme. Dei licença para passar e ela foi feito um foguete em direção ao sonolento viajante (aquele, no assento preferencial!). Ao se aproximar do dorminhoco, resvalou seu joelho no joelho dele que quase deu um pulo, assustado.
Ainda atordoado, ofereceu-se para segurar a bolsa da moça, esticando o braço com um sorriso amarelo.

– Dá aqui a bolsa. Eu seguro pra você.
– Não. Levante-se e deixe-me sentar.
– O que você tem melhor do que eu, pra vir reivindicar o lugar? Paguei o mesmo preço que você, minha filh…

Ele – e eu, que assistia a tudo atentamente – foi surpreendido por um sujeito que arrancou-lhe do assento violentamente.
Os outros passageiros começaram a gritar contra o pobre infeliz, a favor da moça e do brutamontes. Em comum acordo, arremessaram o raquítico rapaz para fora do metrô, quando este fez parada na estação Brás. As pessoas na plataforma não acreditavam no que viam. Até uma senhora idosa, que estava sentada num assento próximo da cena, soltou um grito antes da porta fechar-se completamente.

– Salafrário!

Saindo da estação, indo em direção à Sé, a jovem gestante começou a chorar. Todos em volta, ainda xingando o sujeito posto pra fora do vagão, tentaram acalmá-la, maldizendo a atitude do mal-educado rapaz. A moça – que parecia bastante confusa – balbuciou, vacilante:

– Vocês não entendem – choramingou a moça. E completou:
– Aquele desgraçado é o pai do meu bebê…

Em choque, os “justiceiros” de ocasião deixaram-na sentada e desceram, um a um, para fazer a baldeação. Eu também desci, em meio a algazarra, rumo à estação Vergueiro. Ela, com sua enorme barriga, partiu dentro da composição, melancolicamente, em direção a estação Barra Funda…

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Pauta perigosa

Marina Silva: E o Estado laico?

Com quase 20 milhões de votos no 1º turno dessa eleição presidencial, Marina Silva trouxe à superfície das discussões uma pauta perigosa: a questão da religião num Estado dito laico.

Questões como o aborto e as pequisas com células tronco não podem ser debatidas sob um véu religioso. Mas estas questões, infelizmente, serão relegadas neste momento. Os candidatos que disputam o 2º turno já perceberam e começaram a seguir o script direitinho: dão graças a Deus até quando espirram, além de abastecer suas argumentações políticas com um viés conservador, evitando falar em questões polêmicas.

Acha que o debate trará à mesa de discussão questões como união civil entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo? Pode esquecer. Este 2º turno deverá ter um tom ainda mais bélico, com trocas de ataques, boatos rolando soltos pelo território livre que é a Internet além, é claro, de um comportamento “carola” por ambos os candidatos.

Marina fugiu destas questões no 1º turno e, estranhamente, não foi cobrada com veemência sobre isso pela sociedade. Agora, com o insípido discurso de preservação do meio ambiente e sua bem treinada maneira de falar, falar e não dizer muita coisa, se torna a “noiva”, cortejada pelos finalistas do pleito presidencial.

Assusta, também, saber que seus aliados internacionais não constituem moral para falar sobre preservação do planeta. Destruíram o quanto puderam, possuem as mais altas taxas de emissão de gases e costumam considerar o Brasil com um simples zelador de um quintal que não nos pertence. “A Amazônia é de todos” – costuma dizer Al Gore. Enquanto isso, a British Petroleum acaba com qualquer rastro de vida marinha na costa dos EUA. Vai pagar uma multa de US$ 21 bi e vida que segue. Ou não…

Se a floresta Amazônica é a última chance de preservarmos nossa existência, então é bom a gente começar a juntar nossos trecos porque os “síndicos” do planeta podem bater à porta a qualquer momento.

Sobre seus 15 dias de “reflexão” para dizer quem apoiará no 2º turno: É tudo jogo de cena. O Partido Verde tem histórico de apoio ao PSDB – o que é legítimo – e parece certo que Marina não peitará a orientação do partido. Mas é bom que pense bem, para não vir a ser um Roberto Freire ou uma Soninha Francine, ambos do PPS. Estes trocaram uma história de luta pelo socialismo por papéis de coadjuvantes no cenário político brasileiro.

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