Dalton Trevisan versus Woofer

Dalton Trevisan em caricatura de Fernando Romeiro

Dalton Trevisan em caricatura de Fernando Romeiro

Quando eu li sobre essa brincadeira que inventaram para satirizar o Twitter, pensei logo em escrever um texto que atingisse os tais 1400 caracteres exigidos para poder publicá-lo no tal de Woofer. De cara lembrei do paranaense Dalton Trevisan, que deve suar frio só de imaginar ter seu nome e obra atrelados a uma ferramenta cibernética tão identificada com estrelismos. Ele é, definitivamente, avesso a esse padrão de exibicionismo. Discrição é sua palavra-chave. Para os “mudérnos”, ele faz o estilo low profile.

A professora Tânia Sandroni utilizou um trecho de um conto de Trevisan num exercício de concisão. Não me lembro qual, infelizmente. O que me fez tomar interesse pelo autor é que, no trecho citado – e que era longo! – não havia verbos. Achei fantástico! Logo após, exercitamos o tema, criando uma pequena história onde não deveria haver verbos – tudo bem, depois ela liberou o verbo apenas no particípio. A história deveria ser contada em, no mínimo, 15 linhas de uma folha de caderno universitário e deveria abordar o dia (da hora que acorda até quando volta à cama para dormir) de algum personagem.
Eu contei a história de um sujeito que vendia queijos numa barraca no vale do Anhangabaú e que teve suas mercadorias apreendidas pela GCM e a Vigilância Sanitária do município.

Mas, voltando ao assunto principal, escolhi falar alguma coisa sobre Dalton Trevisan justamente para prestar-lhe uma anti-homenagem, já que acho que ele deve torcer o nariz para todas essas baboseiras criadas quase que diuturnamente na Internet. Vamos ao texto:

***

Desafio fantástico! Exercício de verborragia, não há a menor dúvida. O que um sujeito como Dalton Trevisan, um dos mais concisos contistas brasileiros, diria aqui? Qual seria sua reação ao ser obrigado a deitar tantas palavras para poder ter o direito de divulgar suas ideias, suas enigmáticas ideias?

Bem, deveríamos antes de tudo convencer o citado autor a sair de sua vampiresca mania de anonimato. Sim, porque o curitibano é reconhecidamente tímido. Reconhecidamente avesso à autopromoção.

Não se pode julgá-lo, nem tampouco condená-lo por sua preferência ao estilo discreto de ser, apesar de parecer estranho num mundo onde o culto à celebridade se torna cada vez mais febrilmente insano. Veja você que Trevisan, bem ao seu estilo e sobretudo por sentir-se isolado dos meios intelectuais, concorreu e conquistou o primeiro lugar do I Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná, em 1968. Você conseguiria imaginar uma celebridade qualquer, com um mínimo de competência em qualquer atividade, ser premiada em um concurso e mandar alguém buscar o prêmio para “preservar” sua imagem? Ele quase o fez. Isto é inimaginável nos dias de hoje…

A verdade é que Dalton Trevisan foi inspirado pelos habitantes de Curitiba, mas criou personagens universais em tramas psicológicas dentro de uma linguagem concisa e popular, que valorizava as vicissitudes e os incidentes do cotidiano sofrido e angustiante desses melancólicos personagens.

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