Sobre o medo do outro

or diversas vezes o jovial senhor bebericou, só, em sua mesa, seu chope acompanhado de deliciosos acepipes na simpática lanchonete situada no andar térreo de um dos mais emblemáticos edifícios do centro de São Paulo, o Copan. ‘Seo’ Cruz, viúvo havia nove anos, bancário aposentado, tinha na companhia dos poucos funcionários daquele estabelecimento seus momentos de descontração e entretenimento durante as tardes de domingo. Tardes que denotavam uma São Paulo, pasmem, silenciosa, provinciana, daquele jeito que nos é impossível imaginar durante os dias febris e alucinados de segunda a sexta feira. Um lugar que ficava de frente para a avenida Ipiranga, quase já na rua da Consolação, onde crianças corriam atrás da bola, jovens praticavam skate e senhoras passavam com seus carrinhos rumo à feira da praça Roosevelt. Cenário tranquilo, quase inverossímil para quem caminha por ali durante a semana. Seo Cruz era um homem de sorriso fácil, bom papo, excelente ouvinte, que fazia uso de sua grande experiência e poder de comunicação para contar histórias do futebol de várzea paulistano. Histórias que tomavam a atenção de todos no recinto, até mesmo a proprietária da lanchonete, dona Leonor, que dava uma pausa nos afazeres para prestar atenção nas histórias contadas com exacerbado requinte de detalhes pelo Seo Cruz, apesar dela quase nada entender de futebol. Apenas um dos que ali estavam não dava a menor atenção para as histórias do simpático senhor. Era um recém contratado copeiro, vindo do Ceará, de muito boas referências profissionais, mas de poucas palavras e de fisionomia vacilante, medrosa. Josemiro, este era seu nome, trabalhava com muita correção, nunca deixava sujas as poucas mesas que ali haviam, nem descuidava do belo balcão de mogno que contornava a pequena ilha onde ficavam os atendentes a servir o sempre-no-ponto café spresso, famoso na região. Mas não participava da algazarra que os outros dois atendentes faziam no lugar, o que de certo modo o deixava relegado apenas à labuta, com quase nenhuma socialização. Isso, de certo modo, deixava Seo Cruz um tanto ressabiado. Homem de excelente comunicação e sempre recebido com sorrisos e gentilezas, travava toda vez que chegava ao local e encontrava apenas Josemiro. O atendimento corria de maneira cordata, é fato. Mas o velho senhor sempre tentava entender o porque de tanta seriedade, desvio de olhar, falta de assunto. Não faltaram tentativas de tentar “ganhar” a simpatia do taciturno serviçal. Mas não havia abertura, a conversa não deslanchava. Isso foi levando o velho contador de causos a nutrir certa antipatia pelo copeiro. Seo Cruz passou a evitar adentrar a lanchonete quando esta contava apenas com seu “desafeto” a servir. Uma certa agonia foi tomando conta dos seus momentos no local. Medo do outro.

Uma semana se passou, Seo Cruz ausentou-se da metrópole em visita à sua filha em Santos, para conhecer o neto que acabara de nascer. Voltando de viagem, num daqueles belos domingos de Sol na terra de Piratininga, o velho senhor subiu os quatro lances de escadas do pequeno predinho localizado a uma quadra do Copan. Mal alcançou a porta de sua quitinete, ja pensou em deixar sua pequena valise de viagem para ir ao encontro dos companheiros na festejada lanchonete. Desceu rapidamente os andares e ganhou a rua, caminhando com um largo sorriso nos lábios. Chegando lá, encontrou dona Leonor recebendo o pagamento de um freguês no caixa e Josemiro limpando o belo balcão escuro da lanchonete. O sorriso lhe sumiu, e um pesar tomou conta de si. “Ele vai me servir? Não merecia sorte melhor após me ausentar por todos esses dias?”. Automaticamente, sentou à sua costumeira mesa próxima à porta, de vista privilegiada do local e da rua, e ficou a esperar e torcer que dona Leonor se livrasse do freguês-falador ao caixa, para lhe servir um chope. Pegou o caderno de esportes dum jornal esquecido na mesa ao lado e ficou ali, lendo sobre futebol. Como dona Leonor adentrou uma pequena saleta ao fundo da lanchonete, Josemiro caminhou em direção à mesa de Seo Cruz, que esperava apenas uma palavra para descarregar toda sua angústia, tirar suas satisfações com o “cara-feia” do lugar. Qual não foi sua surpresa quando, num sorriso discreto mas sincero, Josemiro lançou:
“Senti sua falta, Seo Cruz. E o netinho? Já ganhou a camisa do Corinthians?” Bastou isso para o sorriso e a alegria tomar conta do velho e ele responder, com muito entusiasmo: “Ele é palmeirense, meu filho! E cadê aqueles dois moleques vagabundos que trabalham aqui? Estão se escondendo do trabalho como sempre?” E os dois ficaram conversando, animadamente, sobre futebol e outras amenidades, como se fossem amigos de longa data.

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1 comentário

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Uma resposta para “Sobre o medo do outro

  1. Del

    O início não tava me prendendo muito. Mas quando entrou em cena o garçom chuva, o texto me prende de tal forma que em senti aprisionado por alianças que fossem. E a mudança foi como que se houvesse troca de personagem central. Sei que realmente comecei a devorar o texto (cê tá ligado!) e caminhar rumo ao final. Eu apostei na morte do véio, mas o mania seguiu firme. No fim, uma bela lição de como a primeira impressão vai pras cucuias facilmente, e que devemos estar aberto ao diálogo, sem levar tudo tão a sério. Excelente texto. Você escreve muito bem, mina!

    Comentário: Em verdade, desagrada ter meus textos recebidos como “uma bela lição”. Mas suas observações são pertinentes. Inclusive, me sinto influenciado por sua prolixidade. Mas só às vezes, claro. Abraço

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